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Paraisópolis e Dendê: mais uma conversa com corpos negros abatidos

Por Rayane Cristina de Andrade Gomes*
Marcos Paulo Oliveira dos Santos, de 16 anos. Dennys Guilherme dos Santos Franca, de 16 anos. Denys Henrique Quirino da Silva, de 16 anos. Gustavo Cruz Xavier, de 14 anos. Gabriel Rogério de Moraes, de 20 anos. Mateus dos Santos Costa, de 23 anos. Bruno Gabriel dos Santos, de 22 anos. Eduardo Silva, de 21 anos. Luara Victoria de Oliveira, de 18 anos.

E o nome mais recente nessa lista: Diego “Bunitinho” de 36 anos. Personalidade da internet que foi assassinado no morro do Dendê no Rio após um baile funk.

Nessa chamada de mortos eu poderia ser uma das listadas, por um detalhe não estou hoje, amanhã posso estar.

Até que se saiba o contrário sou só mais uma preta que pode ser morta para que depois se façam perguntas. Posso ser vítima de um “erro operacional grave” como diz o ministro da Justiça Sérgio Moro.

Engraçado que esses “erros” nunca acontecem na porta das boates elitizadas da maior cidade do país. Por mera sorte nunca há operações nas portas da raves e micaretas brancas. Falhas, senhor ministro, acontecem quando são exceções e não a regra.

Os meninos e meninas encurralados pela Polícia Militar paulista para um abate coletivo refletem a síntese do que é o racismo estrutural e como ele opera em nosso país. Ana Flauzina cunha uma das expressões mais reveladoras sobre o extermínio da população negra em nosso país: corpos caídos no chão. Não são pessoas humanas assassinadas, são carcaças que podem ser mortas. E depois de abatidas devem ainda defender suas reputações.

É isso que mais me incomoda quando os nossos tombam. As imagens que circulam nas Redes e nos sites jornalísticos narram, comovidos, as histórias de vidas dos nove mortos e dos doze feridos pela emboscada amplamente filmada e divulgada.

Nesse espetáculo da morte que capitaliza likes a solidariedade de segundo tempo só é feita mediante a apresentação do currículo de “jovem preto trabalhador e pai de família”.

Eu insisto em pensar de maneira histórica. Quando da tragédia da Boate Kiss a forma de tratar as vítimas era absolutamente distinta. Não se buscaram as narrativas de vida para legitimar a tristeza com as mortes, ela era automática, como deveria ser agora.

Não há filtro no Instagram, não há campanha “Somos todos Paraisópolis”. É só mais uma lista de pretos que foram mortos por estarem, conscientemente, no lugar errado.

“Preto, pobre, jovem e baile na favela: tava querendo morrer mesmo!”, diz o cidadão de bem.

“Ontem era o samba criminoso e hoje o Funk só pode ser ouvido para recreação fora do morro.”

Somos corpos que não podem se divertir. Somos músculos para o trabalho, para servir a Casa Grande. Somos animais e como animais devemos ser abatidos. Sem dó. Matar um cachorro ou um gato causa mais comoção na internet.

A velha letra “é som de preto, de favelado” ecoa e mais uma vez em minha memória.

Nossa musicalidade é responsabilizada pelo gatilho pressionado pelo Estado. Ontem era o samba criminoso e hoje o Funk só pode ser ouvido para recreação fora do morro. Funk para branco e gringo dançar.

As manifestações da população de Paraisópolis e nas redes sociais deram nomes aos responsáveis: Witzel, Dória e seus secretariados. Uma Comissão externa foi criada para apurar a responsabilidade pelo “erro operacional”, infelizmente em uma conjuntura de exacerbação da morte, temo pelos resultados desses trabalhos.

O racismo galopa como ideologia catalizadora da política representativa. Vivemos em um tempo onde o símbolo de um partido político se materializa em cápsulas de revólver nossos corpos continuam desumanizados.

Chegamos aos últimos suspiros de 2019 com a nomeação de um racista negro para ocupar a Fundação Palmares, que felizmente teve sua concretização suspensa pelo Poder Judiciário, mostra muito do que está por trás das mortes em Paraisópolis.

A necropolítica mais fina e bem-acabada divulgada por Mbembe é a toada do Governo paulista e federal. Esquecem esses senhores brancos que, assim como na peça Hamlet, de Shakespeare, são os mortos que continuarão a assombrar os sonhos dos racistas.

São os vultos de Marielle, de DG do Bonde da Madrugada, de Dandara, de Zumbi que assustam os donos do poder. Vocês nos devem cada sangue derramado e irão pagar.

* Rayane Cristina de Andrade Gomes, advogada, professora de Direito da UEG e integrante do GT Direito e questão racial do IPDMS.

Edição: Rodrigo Chagas

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