Coluna Direitos e Movimentos Sociais

 

Por Carla Appollinario de Castro*

1º de maio de 2020 e aqui estamos todos nós, lutando para sobrevivermos em meio a uma pandemia sem precedentes, pelo menos, para a nossa geração. O surto global de covid-19 escancarou os limites do cenário sombrio que a classe trabalhadora brasileira vinha experimentando há muito e que pode ser caracterizado a partir do sucateamento e da privatização do sistema público de saúde, de educação e de previdência.

No campo do trabalho, adota-se, como regra, vínculos flexíveis, as condições tornam-se mais precárias e também as relações de trabalho. Trabalhadores enfrentam o empobrecimento, apesar de trabalhar muito. Cresce o endividamento das famílias brasileiras e assistimos ao desmonte total das redes de proteção social. Em sua face mais perversa, o avanço neoliberal demonstra completa indiferença social à vida da classe trabalhadora: a morte de uma trabalhadora ou de um trabalhador é reivindicada em nome da manutenção do sistema produtor de mercadorias e serviços.

Para todas e todos nós, trabalhadoras e trabalhadores, não há nenhuma surpresa quanto ao fato de que toda a movimentação das engrenagens do capitalismo depende, direta e exclusivamente, do uso e da exploração da nossa força de trabalho. Em um contexto de crise econômica aguda, como a que já estávamos vivenciando antes mesmo da pandemia, era sabido que a conta, isto é, os custos econômicos e financeiros nos seriam impostos, como de fato ocorreu. Já estávamos arcando com os custos econômicos e sociais da crise, após as sucessivas reformas trabalhista e previdenciária.

Assim, a novidade – ou seja, a paralisação momentânea de alguns setores da máquina de moer gente, especialmente, os relacionados à produção de mercadorias não essenciais – foi surpresa apenas para a burguesia, a classe média e algumas parcelas das classes política e econômica, todos bastante acostumados com a hegemonia do capital.

::De onde tirar o dinheiro para pagar a conta da crise::

O problema maior e que impõe nossa necessária e urgente reflexão coletiva é que, nesse 1º de maio, enquanto muitos já se dedicam a delinear o que será de nós depois da pandemia (no que se convencionou denominar de “novo normal”), outros chegam a comemorar, com certo entusiasmo, o fato de, pela primeira vez na história recente mundial, estarmos conseguindo estancar em alguma medida a reprodução do capital em nível global.

Mas, há um terceiro grupo, no qual eu me incluo, que persiste em sustentar que nada será como antes e que, mais uma vez, todos os indícios nos permitem afirmar que a salgada conta (decorrente da crise econômica anterior e da pandemia) já está sendo imposta à classe trabalhadora. Logo, não há nada a ser comemorado e é muito cedo para qualquer despedida do capitalismo tal como o conhecemos, uma vez que ele já não esconde mais a barbárie como modo de se reproduzir e de se manter mais vivo do que nunca.

Pelo contrário, todos os sinais nos mostram que as trabalhadoras e os trabalhadores, do Brasil e do mundo, estão sendo desafiados, em maior ou menor grau, a pagarem a conta até mesmo com as suas vidas, tudo em nome da reprodução do capital que se disfarça muito bem em suas mais variadas ou recentes facetas: capitalismo virtual, capitalismo bicicleteiro, capitalismo rentista, etc.

Diante desse cenário, que alia barbárie social e necropolítica, é fundamental resgatarmos o espírito das lutas e das conquistas históricas que nos uniram e nos trouxeram até o dia de hoje, porque se, de um lado, sabemos que o capitalismo não morrerá de morte natural, pelo outro, temos uma excelente oportunidade para questioná-lo, sem jamais deixar os sujeitos distraídos se esquecerem que ele deixou milhares de nós sem qualquer meio de sobrevivência e de proteção social em meio ao maior desafio do último século. Por tudo isso, nossa luta é coletiva e, mais do que nunca, urgente e necessária. Há braços na luta.

*Carla Appollinario de Castro é trabalhadora, mulher e professora da Faculdade de Direito e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Edição: Rodrigo Chagas

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